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Quimera (parte 3)

 Quimera

Já deixei o inverno para trás, é primavera,
Mas o amor... ainda é só uma quimera.
Ah, quem me dera poder sonhar contigo,
E criar, no meu silêncio, um abrigo —
Uma quimera linda, só minha, só nossa.

Sóbrio, enclausurado em minha quarentena,
Os nossos planos — algures, Costa do Sol, Macaneta —
Agora distantes, perdidos na bruma pequena.
O resultado? Tão óbvio, tão frio...
Tu és apenas ideia, invenção, vazio.
Miúda que nasceu da minha imaginação,
Num devaneio doce do meu próprio coração.

Me diz, afinal, qual é a direção?
Se tudo o que vivo é pura invenção,
Se tudo que sigo é só o coração...

Às vezes quero lançar tudo ao vento,
Mas o toque gelado, no meu pensamento,
Traz tua imagem em pleno relento.
E percebo: é tudo ilusão. Pura ficção.
Só queria viver aquela história inventada,
Que a gente sonha antes de dormir, calada —
Aquela obsessão tão coesa, tão bela,
Que nos embala em noites sem janela.

"Cada um tem a vista da montanha que escalar",
Disse Kell Smith, num sopro de cantar.
Mas eu já subi uma, duas, três e mais,
E só vejo você nos picos e sinais.
Não importa as trilhas ou a razão,
Você ainda é o pulso do meu coração.

Sim, é mais um clichê —
Mas és tão viva, tão extraordinária,
Mesmo sendo só fruto de mente imaginária.

“O amor nasce da força de tanto imaginar”,
Antero Simões se atreveu a afirmar.
Mas entre ele e Kell, não sei a quem seguir...
Se continuo a sonhar ou deixo partir.

Nas ruas estreitas, de olhos no horizonte,
Vejo-te, fantasma doce, além do monte.
Imaginária, mas tão presente, tão real —
Como se fosses meu bem, meu mal.

Me diz, afinal, qual é a direção?
Se tudo o que sinto é pura invenção...
Mas juro, eu só segui meu coração.

E mesmo quando quero lançar tudo ao vento,
O vento me traz teu nome, teu alento.
E volto a querer viver aquela canção,
A vida que a gente inventa antes da solidão

De Ivanildo Penga, em Quimera

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